Sua empresa está pagando dívida com mais dívida? Entenda quando o endividamento começa a colocar o negócio em risco

Texto: Patrícia Steffanello | Assessoria de Comunicação Foto: Pixabay

Uma parcela vence e o caixa não fecha.

Para não atrasar, a empresa utiliza o limite bancário, antecipa recebíveis ou contrata uma nova linha de crédito.

No mês seguinte, novas parcelas chegam. O faturamento continua entrando, a empresa continua vendendo e trabalhando, mas uma parte cada vez maior do dinheiro já tem destino: pagar empréstimos, financiamentos, juros e renegociações anteriores.

Esse cenário é mais comum do que parece.

E um dos principais sinais de alerta aparece quando a empresa deixa de usar o crédito para investir ou financiar a operação e passa a utilizar uma dívida para conseguir pagar outra.

Isso não significa, necessariamente, que o negócio seja inviável. Muitas empresas possuem operação saudável, clientes, patrimônio e capacidade de geração de receita, mas acabam com um passivo financeiro que já não acompanha a realidade do caixa.

Nessas situações, olhar apenas para a próxima parcela pode esconder um problema maior.

Quando a dívida deixa de ser um problema pontual?

Empresas recorrem ao crédito por inúmeros motivos.

Capital de giro, compra de equipamentos, expansão da operação, aquisição de estoque, sazonalidade, investimentos e até situações inesperadas fazem parte da rotina empresarial.

Portanto, ter uma dívida bancária não significa, por si só, que a empresa esteja em crise.  O sinal de atenção aparece quando a dívida começa a comprometer a capacidade da própria empresa de funcionar. Algumas situações merecem ser observadas.

  1. A empresa contrata crédito para pagar parcelas de outros créditos

Uma nova operação pode até gerar algum alívio imediato no caixa.

O problema começa quando isso se transforma em rotina.

A empresa contrata um empréstimo, utiliza parte do dinheiro para quitar outro, depois renegocia uma terceira operação e, pouco tempo depois, precisa novamente buscar crédito.

Na prática, o passivo pode continuar crescendo enquanto o problema original permanece.

  1. A antecipação de recebíveis virou regra

Antecipar recebíveis pode ser uma ferramenta normal de gestão financeira.

Mas existe diferença entre utilizar esse recurso estrategicamente e depender dele todos os meses apenas para manter pagamentos básicos em dia.

Quando praticamente tudo o que a empresa vende precisa ser antecipado, o caixa futuro começa a ser utilizado para resolver problemas do presente.

Isso pode reduzir cada vez mais a margem disponível para a operação.

  1. As parcelas bancárias estão afetando fornecedores, impostos e folha de pagamento

Outro sinal importante aparece quando a empresa precisa escolher quem pagar.

Banco ou fornecedor?

Parcela ou imposto?

Financiamento ou folha?

Quando o custo financeiro começa a disputar espaço com despesas essenciais à continuidade da atividade, já não estamos falando apenas de uma parcela alta.

Existe uma pressão sobre toda a estrutura financeira do negócio.

  1. A empresa já renegociou várias vezes e o problema continua

Renegociar não significa necessariamente resolver.

Dependendo das condições oferecidas, uma renegociação pode apenas modificar prazo, parcelas, encargos ou estrutura da dívida.

Por isso, antes de assumir um novo contrato para encerrar ou substituir operações anteriores, é importante compreender exatamente o que está sendo contratado.

Qual será o valor total?

Quais garantias permanecem?

Novas garantias foram incluídas?

O sócio está assumindo alguma obrigação pessoal?

Outras dívidas estão sendo incorporadas ao novo contrato?

Essas perguntas são importantes porque uma decisão tomada apenas para conseguir aliviar a próxima parcela pode gerar consequências de longo prazo.

O problema pode não estar apenas no tamanho da dívida

Quando o empresário percebe que o endividamento ficou pesado, a primeira pergunta normalmente é:

“Como diminuir a parcela?”

Mas uma análise mais ampla exige outras perguntas.

Quantos contratos existem?

Quais instituições são credoras?

Quais operações possuem garantia?

Há avalistas ou fiadores?

Existem imóveis, veículos, equipamentos ou recebíveis vinculados?

Já existem parcelas vencidas?

Alguma cobrança judicial foi iniciada?

A empresa assinou renegociações recentemente?

Qual dívida representa maior risco para a operação?

Sem organizar essas informações, existe o risco de resolver um problema imediato e criar outro logo adiante.

Antes de renegociar, é importante entender o passivo

Uma empresa pode ter contratos com bancos diferentes, modalidades de crédito distintas e garantias completamente diferentes umas das outras.

Por isso, uma análise jurídica do endividamento empresarial não deve observar apenas o saldo apresentado pelo banco.

É necessário compreender a estrutura das obrigações.

Entre os documentos que podem ser relevantes estão:

  • contratos bancários;
  • cédulas de crédito;
  • instrumentos de renegociação;
  • aditivos;
  • planilhas de evolução da dívida;
  • extratos;
  • documentos relacionados às garantias;
  • notificações;
  • cartas de cobrança;
  • documentos de eventuais processos judiciais.

A partir dessa organização, fica mais fácil identificar o cenário jurídico existente e quais alternativas podem ser avaliadas.

Negociação extrajudicial pode fazer parte desse processo

Nem todo problema bancário precisa começar no Judiciário.

Dependendo do caso, pode existir espaço para uma negociação extrajudicial estruturada.

A diferença está na forma como essa negociação é conduzida.

Em vez de discutir somente “quanto a empresa consegue pagar por mês”, pode ser necessário avaliar o passivo como um todo, os contratos envolvidos, as garantias existentes e a capacidade financeira da operação.

Isso também ajuda a empresa a compreender quais propostas são compatíveis com sua realidade antes de assumir novas obrigações.

E quando já existe cobrança judicial?

Quando parcelas deixam de ser pagas, a instituição financeira pode adotar os meios de cobrança previstos no contrato e na legislação.

Dependendo do documento firmado e da situação, isso pode resultar em processo judicial de cobrança ou execução.

Nesse momento, o cenário muda.

Prazos processuais passam a existir e podem surgir pedidos relacionados à localização e constrição de patrimônio, conforme as características da obrigação e das garantias envolvidas.

Por isso, uma citação, intimação ou ordem judicial não deve ser ignorada.

É necessário avaliar o processo, os contratos e as garantias para entender qual é a situação jurídica concreta.

Recuperação judicial é sempre a resposta?

Não.

A recuperação judicial é um instrumento previsto na legislação brasileira para empresas que enfrentam situação de crise econômico-financeira e atendem aos requisitos legais.

Mas ela não é a única possibilidade existente.

A própria legislação também disciplina a recuperação extrajudicial, além de continuarem possíveis negociações individuais com credores fora desses procedimentos formais.

A escolha depende do tamanho e do tipo do passivo, da quantidade de credores, da situação operacional da empresa, das garantias existentes e de diversos outros fatores.

Por isso, não é adequado partir da ideia de que toda empresa endividada precisa de recuperação judicial.

Da mesma forma, esperar até que a situação esteja extremamente avançada pode reduzir as alternativas disponíveis.

O ponto principal é parar de olhar somente para a próxima parcela

Quando uma empresa está pagando dívida com dívida, é natural que toda a atenção esteja voltada para o curto prazo.

“Quanto vence esta semana?”

“Quanto precisamos conseguir até sexta-feira?”

“Qual banco ainda tem limite disponível?”

Mas chega um momento em que essa lógica precisa mudar.

O endividamento precisa ser analisado como um conjunto.

Isso significa compreender contratos, credores, garantias, fluxo financeiro, riscos existentes e medidas que já estejam em andamento.

Somente depois desse diagnóstico é possível compreender quais caminhos jurídicos podem ser avaliados em cada situação.

Informação importante

Este conteúdo possui caráter exclusivamente informativo. As possibilidades jurídicas dependem dos contratos firmados, das garantias prestadas, da situação financeira da empresa e das circunstâncias específicas de cada caso.

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